domingo, 24 de junho de 2007

Após retificar erro, MEC anuncia alteração no Ideb

Um dia após a retificação do Ideb (Índice do Desenvolvimento da Educação Básica) de Ramilândia (PR), o Inep (instituto de pesquisas ligado ao Ministério da Educação) afirmou ontem que a nova forma de coleta dos dados do censo educacional de 2007 diminuirá a possibilidade de erros como esse.
Segundo o instituto, para cada dado, as escolas terão que enviar os nomes dos alunos, o que facilitará a conferência dessas informações.
Ramilândia havia ficado com a pior avaliação do país (0,3, enquanto a média nacional era de 3,8), principalmente por causa de seu índice de reprovação, que constava como 93,2%. A cidade, porém, sustentou que os dados se referiam à aprovação.
O Inep aceitou a retificação, mas alegou que foi o município que errou no preenchimento dos dados enviados ao ministério. Disse ainda que não tem "poder de polícia" para conferir se as informações enviadas estão corretas e que, por isso, após a publicação dos dados no "Diário Oficial", dá um prazo para as cidades os retificarem.
O erro de Ramilândia é o segundo em avaliações do Inep. Em 2006, o órgão divulgou que São Paulo figurava entre as piores capitais na Prova Brasil, que avalia o conhecimento em língua portuguesa e matemática dos alunos de 4ª e 8ª séries. Em abril deste ano, admitiu que havia informações erradas.
De 20ª no ranking de capitais em matemática na 4ª série, por exemplo, São Paulo subiu para 12ª. Na época, o instituto atribuiu o erro à "dificuldade da leitura dos códigos de algumas escolas e municípios" e a "problemas no processamento técnico das respostas dos alunos".

Estudo revela perfil da desigualdade social

A educação é o segundo fator para a desigualdade entre ricos e pobres no Brasil – perde apenas para o acesso à cultura. A conclusão está no estudo Gasto e Consumo das Famílias Brasileiras Contemporâneas, divulgado nesta semana pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).
O trabalho aponta que as famílias mais ricas gastam 30% a mais que as mais pobres e que quanto maior a renda per capita e o nível de escolaridade dos chefes de família, maior a parcela das despesas com educação.

Enquanto no biênio 1987/88 as despesas das famílias mais ricas brasileiras eram 11,9 vezes superiores às das mais pobres, em 2002/03 essa diferença cresceu para 24,5 vezes, sobretudo pelo aumento com gastos nos cursos regulares – de 13,9 para 44,5 vezes. Em 2002/03, os itens que apontam maior desigualdade de despesas entre as classes sociais brasileiras são os cursos de pós-graduação e os de idiomas, seguidos pelos de ensino superior e médio.

800 vezes desigual

De acordo com o estudo, os gastos com cursos de pós-graduação são praticamente nulos entre as famílias mais pobres do Brasil. Outro indicador de desigualdade é que as despesas das famílias mais ricas com cursos de idiomas superam em até 800 vezes as das mais pobres.

A pesquisa aponta ainda que educação foi o item que mais cresceu no orçamento das famílias: os gastos passaram de 3,16% em 1987/88 para 4,26% em 1995/96, e para 5,50% em 2002/03. O aumento dessas despesas de 1987 a 2003 foi maior na região metropolitana de Goiânia, seguida pelas de São Paulo, Brasília e Belo Horizonte.

Os maiores gastos foram com os cursos regulares (pré-escolares, fundamental, médio e superiores), que em 1987/88 representavam 44,80% do total despendido com educação e em 2002/03 subiram para 66,47%. Os pesquisadores creditam essa alta à expansão da rede privada de ensino nos últimos 15 anos. Neste período, só as matrículas no ensino superior privado cresceram 174%, enquanto no público aumentaram 79,8%.
Agência Brasil

segunda-feira, 30 de abril de 2007

Frei Betto: Chávez tem poucos poderes para governar

''Ao contrário do que apregoa a mídia dos Estados Unidos, Chávez é o presidente latino-americano com menos poderes e mais cercado de dispositivos constitucionais limitadores de sua atuação.'' É o que diz Frei Betto, em artigo publicado nesta sexta-feira (27) no Correio da Cidadania. Confira a íntegra do texto.
Chávez: respaldo popular
Primavera latino-americana

Por Frei Betto *

Decepcionados com as tradicionais oligarquias políticas, os eleitores da América Latina canalizam agora seus votos para candidatos que encarnam a esperança de mudanças capazes de reduzir a desigualdade e a miséria.

Votam em gente com cara da gente: o operário Lula no Brasil; o mestiço Chávez na Venezuela; o indígena Morales na Bolívia; o militante de esquerda Correa no Equador; o ex-guerrilheiro Ortega na Nicarágua. E queira Deus que, em breve, Fernando Lugo seja eleito presidente do Paraguai e Rigoberta Menchú da Guatemala.

Na Venezuela, Chávez reforça o poder popular ao instalar os Conselhos Comunitários. Essa a única via pela qual governos democráticos podem, efetivamente, assegurar sua governabilidade sem correr o risco de ficarem reféns do Congresso e vulneráveis a golpes de Estado orquestrados desde Washington, como ocorreu na Venezuela em 2002.

No Brasil, Lula optou pela via parlamentar, formando uma coalizão partidária que lhe garante maioria no Congresso, embora sem metas definidas quanto ao projeto de um novo Brasil. Os partidos foram atraídos pela oferta de cargos na máquina do Executivo.

Ao contrário de Chávez, Lula não se interessa em mobilizar os movimentos sociais, temeroso de que exijam dele mudanças na política econômica neoliberal, de rigoroso ajuste fiscal, e na política social, que está devendo a reforma agrária, porta de saída das famílias pobres que, hoje, dependem de recursos do Estado para a sua sobrevivência imediata.

As novas medidas de Chávez

Reeleito em dezembro por 63% do eleitorado, Chávez obteve a aprovação, pelo Congresso, da Lei Habilitante, que lhe permite governar nos próximos 18 meses sem consulta ao parlamento. Esta, a versão venezuelana das Medidas Provisórias adotadas à sobeja no Brasil.

Até 1º de maio, Chávez pretende reduzir o poder dos consórcios petroleiros que operam na região do rio Orinoco, onde produzem cerca de 600 mil barris/dia, e com potencial para 1,3 bilhão de barris/dia.

A medida afetará empresas estrangeiras que, até agora, fartavam-se do petróleo venezuelano e inflavam seu faturamento sem contrapartida no desenvolvimento sustentável do país: as usamericanas Chevron, Exxon Mobil, Texaco e Conoco Philips; a francesa Total; a norueguesa Statoil e a britânica British Petroleum.

A empresa venezuelana PDVSA é a sócia minoritária nesse consórcio. A partir de 1º de maio ela ficará com a cota de 60%; as demais, com 40%.

Consta ainda dos planos de Chávez nacionalizar a empresa Eletricidade de Caracas, hoje controlada pela AES dos Estados Unidos, e não renovar a concessão de freqüência do Estado à empresa de telecomunicações RCTV (Rádio Caracas Televisión), que poderá continuar a operar por satélite e cabo.

A RCTV apoiou o golpe de abril de 2002, que tentou derrubar o presidente venezuelano e, no mesmo ano, em dezembro, a sabotagem à PDVSA, o que pôs em risco a economia do país. Chávez preferiu, à época, não punir a emissora.

Funções limitadas

Ao contrário do que apregoa a mídia dos Estados Unidos, Chávez é o presidente latino-americano com menos poderes e mais cercado de dispositivos constitucionais limitadores de sua atuação.

O mais importante deles é o Referendum Revocatório, que autoriza 5% dos eleitores, cerca de 800 mil pessoas, a exigirem que o eleito se submeta à aprovação popular na metade do seu mandato. Sua aplicação ocorreu em agosto de 2004, quando a oposição venezuelana pediu o referendum e teve que amargar o resultado: a maioria da população reafirmou sua confiança em Chávez.

Se houvesse Referendum Revocatório na Argentina e na Bolívia, Fernando de la Rúa e Sánchez de Lozada teriam sido destituídos sem a pressão popular que pagou o alto preço de vidas sacrificadas. E no Peru, Alejandro Toledo, que governou com índice de aprovação inferior a 15%, teria cedido seu lugar a outro na metade de seu mandato.

No Equador, país que teve oito presidentes nos últimos dez anos, Rafael Correa mobiliza a nação para que se forme a Assembléia Nacional Constituinte, aprovada por mais de 70% dos eleitores no último domingo.

E na Bolívia, Evo Morales comemora a redução, em apenas um ano, do déficit fiscal; a duplicação das reservas do país; e o avanço dos indicadores econômicos, graças à cobrança do preço justo do gás explorado por companhias estrangeiras e a recuperação da propriedade sobre os hidrocarburetos.

Pela via democrática e pacífica, a América Latina tenta livrar-se da miséria a que a maioria de sua população foi condenada pelas grandes potências. Se essas reagirem à perda de seus privilégios exorbitantes, o cenário do Iraque poderá se transportar para a região. Bom-senso e incenso não fazem mal a ninguém.

* Frei Betto é escritor, autor de Gosto de Uva, entre outros livros

Manuela (PCdoB-RS): "Educação ou Cadeia para a Juventude?"

Na mesma semana em que a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado Federal aprovou a redução da maioridade penal - de 18 para 16 anos -, a deputada federal Manuela D'Ávila (PCdoB-RS) convoca mobilizações em Porto Alegre contra a medida.
Manuela convoca duas manifestações
Para a parlamentar gaúcha, é preciso protestar contra a redução já na próxima terça-feira (1º/05), no Ato do Dia do Trabalhador, e também no dia 4, quando os jovens sairão às ruas contra o sucateamento da UERGS (Universidade Estadual do RS), em defesa da educação e contra a cadeia para a juventude.

Em cada uma dessas datas, o Escritório Político da Deputada Manuela promoverá, em conjunto com a União da Juventude Socialista (UJS), a manifestação "Educação ou Cadeia para a Juventude?".

Defender a redução da maioridade - como faz 80% da população brasileira - é ir na contramão das estatísticas. Apenas 10% dos delitos no Brasil são cometidos por crianças e adolescentes, abaixo da média mundial, de 11,6%.

Contradição

Além disso, 70% desses crimes são contra o patrimônio. Desde 1950, a média de 8% de crimes contra a vida praticados por menores de 18 se mantém intacta, contrariando o argumento de que a juventude mudou.

Segundo Manuela, esses números não são divulgados e, por isso, ficam desconhecidos. A opinião pública reproduz a opinião publicada.

Para se ter uma idéia das contradições que marcam essa visão, basta lembrar a repercussão em tornou da PEC (Proposta de Emenda Constitucional) que reduz a idade mínima para concorrer ao Senado e à Presidência da República.

Autora da medida, Manuela propõe que, em vez dos 35 anos exigidos hoje, a candidatura possa ocorrer aos 30. Mas essa redução, muito mais coerente do que a da maioridade penal, contraria interesses dos caciques da política e das elites - que chiaram contra a PEC.

Manuela questiona: se nenhum brasileiro tem maturidade, experiência e capacidade para ser senador ou presidente aos 30 anos, como pode ser declarado responsável por todos os seus atos já aos 16?

Investir na juventude

"É preciso superar a contradição entre emprego x educação. Como oportunizar que a necessidade de auxiliar no orçamento doméstico não se contraponha à ida à escola ou à universidade?", questiona a comunista.

Segundo Manuela, também é importante trabalhar outras medidas de inclusão, como "garantir a permanência de estudantes na sala de aula - viabilizando transporte escolar, por exemplo - e reduzir o número de jovens em situação de violência".

"É inadmissível que 38% dos jovens engrossem as estatísticas da evasão escolar. É impossível que um jovem morto aos 16 anos no narcotráfico torne-se médico aos 30. Trata-se, portanto, de alterar o presente", conclui.

O Brasil, diz Manuela, deve "se desenvolver de maneira soberana" para entrar nesse rumo de mudanças. "Temos que fazer com que a economia cresça para viabilizar investimentos na juventude."

No Rio Grande do Sul, porém, a governadora Yeda Crusius (PSDB) - que declarou que a educação era prioridade em seu governo - contraditoriamente promove o sucateamento da UERGS (Universidade Estadual do Rio Grande do Sul), criada durante o governo de Olívio Dutra.

Da Redação, com informações de Sônia Corrêa

Por Olavo Bilac

Ao coração que sofre, separado
Do teu, no exílio em que a chorar me vejo,
Não basta o afeto simples e sagrado
Com que das desventuras me protejo.

Não me basta saber que sou amado,

Nem só desejo o teu amor: desejo
Ter nos braços teu corpo delicado,

Ter na boca a doçura de teu beijo.
E as justas ambições que me consomem
Não me envergonham: pois maior baixeza
Não há que a terra pelo céu trocar;

E mais eleva o coração de um homem

Ser de homem sempre e, na maior pureza,

Ficar na terra
e humanamente amar.

domingo, 11 de fevereiro de 2007

A brasilidade do povo catarinense: de onde vem o verde e o amarelo?

Refletir sobre o papel da cultura no desenvolvimento social é premissa mínima se quisermos reagir enquanto membros construtores de uma sociedade esclarecida e justa. Passa pelo reconhecimento da identidade e da diversidade humana a construção do homem conscientizado, ciente do papel fundamental que exerce no seu meio. A partir da valorização da produção humana cotidiana se dá a elevação da auto-estima, da cidadania e do respeito à pluralidade, transformando os seres em agentes participativos dentro dos diversos processos de desdobramentos da humanidade em busca do progresso.
Santa Catarina destaca-se nacionalmente como um Estado na contramão. Essa afirmativa pode ser constatada pelo grande número de governos municipais ideologicamente conservadores, pela moral atrasada impressa nas relações, com resquício de repressão, xenofobia e racismo, todos oriundos de um problema latente: o povo catarinense não tem conhecimento sobre si. De um ponto de vista político, o problema acentua-se quando percebemos a falta de estratégias públicas para área da cultura. Fator que alija o desenvolvimento teórico e abafa o senso crítico da população. Talvez seja essa a tática, mantenedora de um status quo, reafirmado na ausência de um projeto amplo no campo da cultura. Mas, reflitamos sobre tal.
Os movimentos artístico-culturais são ferramentas para estabelecer um novo olhar sobre a sociedade, ampliar a atividade intelectual e abolir a ferrugem retrógrada, que será desintegrada a partir do momento em que entendermos nossa história, nossa formação etnológica e a cultura popular produzida por homens e mulheres que formam um mosaico cultural, advindos de todos os continentes.
A diversidade propõe uma Santa Catarina com caras e sotaques de diversos eixos: ibéricos, orientais, mouros, negros e índios contrastam com um pseudodiagnóstico que determina como característica primeira catarinense uma fisionomia européia, no meridiano de um país tropical. Erro cabal. Precisamos despertar para a idéia do múltiplo, do diverso e, sobretudo do novo, que aparece com o passar dos anos, das adaptações da cultura e da formação de um arquétipo chamado homem catarinense, característico em si e brasileiro por essência. Neste pequeno espaço territorial, um lugar de ampla miscigenação.
O processo colonizador no Estado se dá por diversas vertentes, desde a imigração litorânea por portugueses vicentistas que abrem os caminhos ao Sul do Brasil, açorianos que desembarcam para garantir povoamento das terras em disputa com a Espanha, escravos vindos da África para servir de mão de obra, até o tropeiro lageano, que transporta a carne seca do Sul às terras paulistas e os imigrantes italianos e alemães, fugindo da miséria instaurada na Europa do século XIX. Libaneses e poloneses, até mesmo uma colônia de japoneses no interior de Santa Catarina. Destaque fundamental para os indígenas das tribos Xokleng, Kaingang e da grande família Tupi, sambaquieiros, que deixaram como legado os vestígios intactos da sua história, nos Sambaquis mais expressivos do território brasileiro. Mãos tecendo uma colcha de retalhos, onde cada microrregião se transforma num espaço novo de descobertas. Norte, Sul, Planalto, Vale, Oeste, banhados pelo mar, pelas águas doces das lagoas e dos rios, o homem em luta com o moderno e o arcaico.
Se parecia difícil perceber tanta diversidade, impossível agora o leitor não esbarrar na gama de costumes e tradições, no lirismo e na poesia, tipicamente catarinenses, caracterizados por aquilo que o Brasil tem de melhor: a heterogeneidade humana. Afastado pela pouca relevância política no cenário nacional, Santa Catarina é, por assim dizer, filha do verde e do amarelo, repleta da miscigenação, belezas naturais e composta por um povo acolhedor, típico da realidade brasileira.
Nas artes, na produção cotidiana, no passado de lutas, na construção política baseada historicamente na manutenção da unidade do país, com uma cultura popular repleta de lendas, de “causos”, de personagens e de peculiaridades lingüísticas, por que não vermos este pequeno Estado como um recanto de infinita inspiração, pluralidade, atividade intelectual? É preciso enxergar o limiar de uma nova concepção de valores, onde se abandona de vez por todas o conservadorismo e o marasmo. É no negro quilombola guerreiro, na criatividade açoriana, na espiritualidade indígena e na poesia italiana que unificamos um só espírito e jeito de ser Barriga Verde, que não é vulto do passado, mas presença contínua no caminhar da humanidade.
Nos falta, evidentemente, uma preocupação acirrada no que diz respeito à política de desenvolvimento da cultura, com projetos incentivadores de produções audiovisuais, plásticas e de acesso a oficinas artísticas. Dar ao povo o acesso à arte e ao esclarecimento. Projetos que proporcione a população estar próxima a sua própria produção. A criação de museus da cultura popular, o incentivo a pesquisas antropológicas, realizadas nas mais diversas comunidades, a fim de resgatar as atividades não só amparadas no tradicionalismo estático, mas, no intuito de elevar a alma do povo, onde ele se reconheça e possa desenvolver a crítica sobre si e sobre o meio. Há um vasto campo de trabalho a ser desenvolvido, com políticas de incentivo às produções populares, às manifestações artísticas e às pesquisas acadêmicas no seio das universidades. O movimento estudantil deve cumprir também esse papel fundamental, bem como os demais movimentos sociais, sociedade civil e Governo do Estado, no intuito de incluir Santa Catarina, um lugar de tanta riqueza, história e peculiaridade cultural e étnica, projetando a idéia de identidade, tão importante para a consolidação da soberania.
Clarissa Peixoto

Em entrevista, Cláudio Lembo desanca tucanos e o ''velho PFL''

Em entrevista à revista semanal IstoÉ, o ex-governador de São Paulo, Cláudio Lembo (PFL), condena ''idéia de superioridade'' dos tucanos paulistas e cita particularmente o atual governador José Serra como um dos tucanos que alimenta ares de arrogância. Lembo, conhecido pela língua afiada, também não poupou seu próprio partido de críticas. O ex-governador, que agora voltou a lecionar, decreta o fim da legenda dos coronéis e defende que o partido se torne “pequeno-burguês”.
''novo PFL?''


O governador de São Paulo, José Serra (PSDB), não quis alimentar polêmica neste sábado com o ex-governador Cláudio Lembo (PFL), que lhe fez várias críticas em entrevista à revista IstoÉ. Lembo insinuou considerar Serra ''narcisista'' e disse que o ''tucanato paulista tem uma idéia própria de superioridade''.

Ao participar da 2ª Festa do Ano Novo Chinês, que acontece na Liberdade, região central de São Paulo, Serra disse não ter conhecimento da entrevista e chegou a pedir uma cópia da revista. Leu o texto, mas continuou calado.

Lembo, que substituiu Geraldo Alckmin no governo de São Paulo quando o tucano deixou o cargo para concorrer às eleições presidenciais, reclama que secretários de Serra o acusam de má gestão e diz que fez apenas um governo de transição.

''Preservei a estrutura de governo do PSDB. O problema é que o PSDB tem uma visão autofágica da política. Come-se a si mesmo. Isso não leva a nada, mas acho que eles não entendem'', afirmou o pefelista, segundo a IstoÉ. ''Serra é apenas o registro do tucano médio. Ele tem uma tendência a buscar a perfeição'', comentou ele, sobre seu sucessor.

Confira abaixo a íntegra da entrevista publicada na IstoÉ:

Por Marco Damiani
O ex-governador Cláudio Lembo nasceu para a política dentro da Arena, o partido de apoio ao regime militar. Evoluiu pelas trocas de nomes da legenda até chegar ao PFL, pelo qual cumpriu um mandato de nove meses como governador de São Paulo, em 2006. Tarimbado, ele sustenta que chegou a hora de o partido dar um fim a si mesmo, buscando outro nome e bandeiras mais identificadas “com os pequeno-burgueses da cidade e do campo”. O espaço político, acredita, está aberto, principalmente porque o PSDB não está sabendo cumprir esse papel. “Os tucanos são autofágicos, comem-se a si mesmos”, avalia. A ira disfarçada em ironia tem a ver com a postura assumida pelo governador José Serra em relação à sua gestão em São Paulo. Depois que lhe passou o pavilhão do Estado, em 1º de janeiro, nunca mais Lembo foi convidado para uma conversa no Palácio dos Bandeirantes. Agora, vê crescerem os disparos dos tucanos contra a sua curta administração, na qual contratos teriam sido malfeitos e até a peça orçamentária pouco ajudaria o Estado. O ex credita o fim do diálogo com Serra ao fato de o governador se achar “mais experiente que os demais”, alerta que se pode fazer muito no governo, “menos ser narcisista”, e lembra que agiu, no poder, como um governador de transição que preservou “a estrutura montada pelo PSDB”. Foi um Lembo inspirado e ferino o político que atendeu ISTOÉ na terça-feira 6 para a entrevista a seguir:
Os tucanos têm criticado sua gestão à frente do Estado. Isso lhe incomoda?Cláudio Lembo – Nem um pouco. Há críticas infundadas, provenientes de uma visão de mundo perfeito, que não existe. As ruas têm sido solidárias comigo, é o que me importa. Li pela imprensa, agora, análises dos atuais secretários sobre o projeto de orçamento, que está sendo discutido na Assembléia Legislativa. Ora, se ele contiver equívocos, é só mandar emendas com as alterações. Não precisam derrubar tudo.

Então o sr. se importa.Lembo – Não, porque eu sei que é difícil para os tucanos agir de outra maneira. Eu fiz um governo de transição, no qual preservei a estrutura de governo do PSDB. O problema é que o PSDB tem uma visão autofágica da política. Come-se a si mesmo. Isso não leva a nada, mas acho que eles não entendem.

O sr. foi bastante procurado pelo então governador eleito José Serra durante a fase de transição de governo. Depois da posse, voltaram a se falar?Lembo – Não. Eu não fui mais convidado pelo governador Serra para nenhum diálogo. Não estivemos juntos nenhuma vez. A última vez que o vi oficialmente foi no dia 1º de janeiro, quando ele tomou posse e eu ofereci todo o suporte necessário para uma transmissão em nível civilizado. Posteriormente, nos vimos numa mera reunião oficial no Tribunal de Contas do Estado. Ele foi educado. E só.

Para a transferência de informações, não teria sido mais adequado que as conversas continuassem?Lembo – Eu creio que o governador Serra seja um homem tão preparado que não precisa de diálogos com pessoas que não tenham uma experiência tão grande quanto a dele. Ele certamente se acha mais experiente que os demais e por isso nunca precisou de nenhum diálogo comigo.

Na atividade política, talvez o sr. tenha mais tempo do que ele.Lembo – E na vida. Lamentavelmente, tenho até mais tempo de vida. E de política também. Eu vivi momentos muitos difíceis na política, mas isso é muito subjetivo e de cada um. Certamente cada um valoriza a sua vida e os momentos mais difíceis das suas carreiras. É preciso lembrar, porém, que no governo se pode tudo, menos ser narcisista.

É o caso do governador paulista?Lembo – Serra é apenas o registro do tucano médio. Ele tem uma tendência a buscar a perfeição.

Surgem agora críticas sobre a extensão, por oito anos, das concessões às empreiteiras que administram as estradas e os pedágios. A responsabilidade pela prorrogação foi atribuída ao sr. Lembo – Esse é um grande equívoco e, acima de tudo, um erro técnico e legal. Quem prorrogou os contratos – e eu até desconheço os termos dessas prorrogações – foi a Agência Delegada dos Transportes de São Paulo. Eu desconhecia. O governador Serra sabe que eu desconhecia. Houve um estudo pela agência, em função de sua autonomia legal, que eu acho excessiva – e isso sim mereceria um estudo. O primeiro ato que eu tomaria no exercício do governo seria a elaboração de um anteprojeto examinando formas de cercear ou, ao menos, permitir maior transparência a essas agências, de resto criadas pelos tucanos.

O sr., logo após assumir, teve de enfrentar distúrbios e rebeliões organizadas pelo PCC. Naquele momento, não houve uma solidariedade imediata do ex-governador Alckmin e tampouco do então candidato Serra. Sempre foi difícil se relacionar com os tucanos de São Paulo?Lembo – Sim. O tucano, em geral, tem uma introversão que o faz viver apenas no seu ninho e não permite uma boa relação com o mundo exterior. Salvo os tucanos, talvez, de outros Estados do Brasil. Aqui em São Paulo, o tucanato tem uma idéia própria de superioridade perante os outros. Isso é grave. O que temos visto no mundo é que quando a intelectualidade tenta dominar a sociedade, isso gera um grande problema.

Dá para governar assim?Lembo – Pode dar, mas não é bom. É bom a gente sempre ter relações muito próximas com todos os segmentos da sociedade. Um governo intelectualizado, elitizado, pode ter a rejeição da sociedade. Pode ter ao seu lado alguns segmentos superiores, mas os grandes estamentos da sociedade podem se mostrar antagônicos e, mais que isso, frustrados. Aí, a resposta virá pelas urnas.

Como o sr. vê o perfil de Serra no governo?Lembo – Difícil. O governador Serra tem-se mostrado um homem introvertido. Não tem dado entrevistas coletivas, não tem se exposto à imprensa. É difícil perceber, por isso, qual vai ser o seu estilo. Ele nunca foi o primeiro, nunca foi a estrela dos grupos aos quais pertenceu. Ele foi secretário do Planejamento, foi ministro, foi sempre um homem que esteve sob a tutela do governador de São Paulo ou do presidente da República. É o momento de ele demonstrar a sua própria personalidade. Acho que será introvertido e com baixo bom humor. À medida que se aproxime da sociedade, vai sentir a necessidade de sorrir.

Qual é a sua aposta de boa gestão entre os novos governadores?Lembo – Aécio Neves. Ele fez um bom primeiro mandato, com secretariado de altíssimo nível. Não sei se ele sai na frente de Serra na disputa presidencial para 2010, mas de qualquer maneira administrativamente ele sai na frente, porque está continuando um governo que foi bem-sucedido nos primeiros quatro anos.

São Paulo não deveria estar neste mesmo caso de continuidade, à medida que os tucanos estiveram 12 anos seguidos no poder, o que inclui o seu período?Lembo – Mas aqui existe um problema: o tucanato de São Paulo é muito dividido. Essa divisão faz com que haja lutas intestinas que não permitem continuidades administrativas.

A aliança do PFL com o PSDB, que existiu durante três eleições presidenciais, chegou ao fim?Lembo – Da minha parte só vejo uma saída: um candidato a presidente da República do nosso partido. Pode não ser um candidato que venha a ser vitorioso, mas que ofereça pensamentos, idéias e, acima de tudo, novos caminhos para o futuro. Isso de viver sempre vinculado a outro partido, como é da história do PFL, é extremamente grave. Não forma quadros nem novas lideranças. Aí o partido pode tender para uma autoflagelação que o levará à morte.

Não é melhor o partido anunciar oficialmente que não fica mais junto com o PSDB?Lembo – Eu acho que em Brasília está acontecendo isso. A eleição de presidente da Câmara Federal demonstrou que o PFL partiu para uma posição firme, de autonomia. Isso é bom para o partido. Foi um posicionamento claro. Eu creio que o PFL vai ter algumas situações muito boas a partir de figuras de outros Estados. Temos bons quadros, como o novo líder Onix Lorenzoni, o ACM Neto, o Rodrigo Maia e o José Carlos Aleluia. Acho que o PFL tem de se transformar num partido do Congresso Nacional, com grandes quadros no Senado e bons quadros na Câmara Federal.

Mas o partido vem diminuindo.Lembo – Isso é normal. Toda vez que perde governo, um partido que nasceu nas entranhas do governo perde quadros. Eu não vejo nada de excepcional nisso. O que essa redução de tamanho alerta é para a necessidade de mudança. Está na hora de mudar a denominação, conceber um novo partido, como também dar mais clareza aos objetivos do partido. Está faltando um grande partido pequeno-burguês no Brasil, de representação dos interesses das classes médias urbanas e rurais. É isso que deve se fazer a partir da mudança que se está anunciando agora, com a criação do Partido Democrático. O velho PFL acabou.

O sr. pode montar o novo PFL em São Paulo?Lembo – Não é fácil. É preciso muitos quadros. Também em São Paulo o partido acabou. Sempre estivemos a reboque, desde o tempo do Paulo Maluf.

O sr. defende que o prefeito Gilberto Kassab, de São Paulo, se desvincule da liderança do governador Serra, do PSDB?Lembo – Eu espero que ele faça uma reflexão e analise o que é melhor para o partido. Também espero que o Guilherme Afif seja uma das nossas grandes bandeiras, em razão da luta que ele tem pela diminuição dos impostos. Essa é uma boa bandeira. Ele tem grande espaço pela frente.

O sr. acha que o prefeito Kassab está indo bem à frente da maior cidade do País?Lembo – Eu diria que ele está indo. Não colocaria nenhum advérbio nesse momento. O episódio da última semana (Kassab expulsou um desempregado de um posto de saúde chamando-o de “vagabundo”) mostra a expressão do conflito social que existe no Brasil. Eu sempre mostrava, durante a minha passagem pelo governo, que a minoria branca está em conflito com a maioria da sociedade. Esse episódio mostra exatamente isso: o poder está em situações de conflito com as pessoas isoladas, o “qualquer um”, que é próprio da política italiana dos anos 1930. Esse episódio mostra que uma pessoa, como é próprio da democracia, ofereça suas idéias e tenha um conflito com as autoridades.